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O uso excessivo de ecrãs entre crianças e adolescentes

O uso excessivo de ecrãs entre crianças e adolescentes

Os ecrãs fazem parte do quotidiano de quase todas as famílias. Televisão, telemóveis, tablets e computadores são hoje ferramentas comuns de comunicação, aprendizagem e entretenimento. Para crianças e adolescentes, crescer num mundo digital é algo natural. No entanto, quando o tempo de ecrã ocupa grande parte do dia, podem surgir impactos negativos na saúde e no bem-estar. Mais do que proibir ou demonizar a tecnologia, o desafio passa por encontrar um equilíbrio saudável, adaptado à idade e ao contexto de cada criança.

 

Os benefícios do uso dos ecrãs

Quando utilizados de forma adequada, os ecrãs podem trazer vários benefícios. Permitem o acesso a conteúdos educativos, facilitam a aprendizagem, estimulam a criatividade e ajudam a manter o contacto com amigos e familiares. Durante o período escolar, são também uma ferramenta essencial para o estudo e realização de trabalhos. Além disso, algumas aplicações e jogos podem promover o raciocínio, a resolução de problemas e até a atividade física, quando bem escolhidos. O problema não está no uso em si, mas sim no uso excessivo e pouco equilibrado.

Quando o tempo de ecrã é excessivo

O uso prolongado de ecrãs está associado a vários efeitos negativos, especialmente quando substitui outras atividades importantes do dia-a-dia. Ao nível da saúde física, o excesso de tempo sentado contribui para o sedentarismo, podendo aumentar o risco de excesso de peso. São também frequentes as queixas de dores de cabeça, cansaço visual e problemas posturais. O uso de ecrãs antes de dormir pode interferir com a qualidade do sono, tornando as crianças mais cansadas e irritáveis durante o dia.

Na saúde mental e emocional, alguns estudos associam o uso excessivo de ecrãs a dificuldades de concentração, aumento de ansiedade, irritabilidade e menor tolerância à frustração, sobretudo em adolescentes. O contacto constante com redes sociais pode também intensificar comparações sociais e pressão para corresponder a determinados padrões.

Comportamentos não saudáveis tendem a estar associados

É importante salientar que os comportamentos não saudáveis raramente surgem isolados. O excesso de tempo de ecrã está muitas vezes associado a outros hábitos menos saudáveis, como uma alimentação desequilibrada, incluindo um maior consumo de alimentos ultraprocessados, e menor prática de atividade física.

O que recomendam as entidades de saúde

Várias entidades nacionais e internacionais têm vindo a definir recomendações para ajudar as famílias e gerir o uso dos ecrãs em idade pediátrica. Apesar de pequenas diferenças, as orientações são semelhantes e reforçam a importância do equilíbrio e da adequação à idade. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

  • Crianças com menos de 2 anos não devem ser expostas a ecrãs;
  • Entre os 2 e os 5 anos, o tempo de ecrã deve ser limitado a no máximo 1 hora por dia, preferencialmente com conteúdos educativos e acompanhados por um adulto;
  • Em crianças mais velhas e adolescentes, recomenda-se a definição de limites claros, garantido tempo suficiente para dormir, estudar, praticar atividade física e conviver em família.

Em Portugal, a Sociedade Portuguesa de Neuropediatria reforça estas recomendações.

O que dizem os dados em Portugal

Em Portugal, os dados indicam que muitas crianças e adolescentes passam várias horas por dia em frente aos ecrãs, sobretudo fora do período escolar. Dados recentes mostram que o tempo médio diário a utilizar ecrãs é de 2h30m em crianças de3 a 5 anos, e de mais de 3h em crianças entre os 6 e os 10 anos de idade. De forma geral, apenas 10% das crianças abaixo dos 5 anos cumpre as recomendações de tempo de ecrã da OMS. O tempo de ecrã tende a aumentar com a idade. E existem também algumas diferenças entre sexos: de forma geral, os rapazes passam mais tempo em jogos eletrónicos e acumulam mais tempo de ecrã, enquanto as raparigas tendem a valorizar mais as redes sociais.

Outro aspeto importante são as desigualdades socioeconómicas. Crianças de famílias com menor nível socioeconómico tendem, em média, a passar mais tempo em frente aos ecrãs. Isto pode estar relacionado com menos acesso a atividades extracurriculares, espaços seguros para brincar ao ar livre ou apoio para a prática desportiva. Assim, o tempo de ecrã torna-se muitas vezes a principal forma de entretenimento disponível. Por outro lado, estas desigualdades também podem estar associadas a um menor reconhecimento das recomendações de tempo de ecrã por parte dos pais com menor nível educacional.

Recomendações práticas para as famílias

Promover um uso saudável dos ecrãs começa em casa, com pequenas mudanças no dia-a-dia:

  • Definir limites claros para o tempo de ecrã, adequados à idade da criança;
  • Evitar o uso de ecrãs antes de dormir, promovendo rotinas de sono regulares;
  • Dar o exemplo: os adultos também devem moderar o seu próprio uso;
  • Incentivar a atividade física, brincadeiras ao ar livre e momentos de lazer em família;
  • Evitar refeições em frente aos ecrãs, promovendo uma alimentação mais consciente;
  • Conversar sobre os conteúdos, não apenas sobre com a tecnologia.

 

Em suma, os ecrãs fazem parte da vida moderna e podem ter um papel positivo no desenvolvimento de crianças e adolescentes. No entanto, o uso excessivo, especialmente quando associado a outros comportamentos não saudáveis, pode trazer consequências para a saúde física, mental e social. Promover o equilíbrio, reduzir desigualdades e criar rotinas familiares saudáveis são passos fundamentais para garantir que a tecnologia é uma aliada – e não um obstáculo – ao bem-estar das crianças e jovens.

Daniela Rodrigues

Antropóloga e Investigadora – Universidade de Coimbra

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